MENINA MIÚDA: UM ESPETÁCULO GRAÚDO
Posted on sexta-feira, 19 de abril de 2013
Escolhi estrear o meu blog com o
espetáculo Menina miúda, do Grupo de
Teatro A Tua Lona, da Barra dos Coqueiros, primeiro por ser este um grupo que
vem se despontando no cenário teatral sergipano com grande força, com uma
proposta cênica que traz em sua estética uma perspectiva moderna experimental. Segundo,
por ser a dramaturgia de Menina miúda
pulsante, onde a palavra, virtuosa, transita entre a ironia e a delicadeza.
Assisti ao espetáculo algumas vezes, sendo a mais recente no dia 30 de março,
último, encerrando o 1º Festival Socorrense de Teatro, e pude observar uma pontual
evolução do espetáculo em vários aspectos, principalmente em se tratando da atuação
dos atores. Quero registrar também que apesar de manter uma estreita amizade
com o seu autor nunca conversamos a respeito do seu espetáculo; a não ser de
minha parte ter proferido breves, porém entusiasmados, comentários sobre o
mesmo, pois desde o momento em que o assisti pela primeira vez já gostei muito
do que vi. Agora me encontro na posição de crítico para avaliar a montagem de Menina miúda, que expõe em cena ao mesmo
tempo autor e diretor: o jovem talentoso Euler Lopes. Então, vamos afiar a
língua...
Vou iniciar tecendo alguns
comentários a respeito do texto, que aparentemente não traz nada de
novo em sua fórmula, pois se vale de um tema bastante repetitivo - porém não menos
pertinente -, que é o amor, e de um universo também muito usado e reusado, que
é o sertão. E é nesse universo, aparentemente desgastado, que Euler habilmente contemporiza
a sua impressão como dramaturgo, e cria um texto rebuscado que nos remete ao medievo
shakespeariano, e a um popularesco clássico. Em Menina miúda os personagens Zé e Constância, ao invés de se valerem
de vícios da linguagem na forma de se falar a palavra, como acontece na maioria
dos clichês nordestinos, ao contrário disso poetizam e filosofam pelos
recônditos labirintos da paixão com a simplicidade que lhes é peculiar, nos
fazendo perceber que mesmo nesse espaço agreste rodeado de inevitáveis intempéries,
que traz como característica marcante em sua sina o sofrimento, brotam de suas
falas a poesia, o sentimento voluptuoso, o amor e a sabedoria popular. Esse
diferencial faz do texto Menina miúda
uma dramaturgia singular e atemporal, pois as palavras que dela saltam naturalmente
podem ser ditas por personagens situados desde a longínqua Veneza até as
cidades ribeirinhas banhadas pelo rio São Francisco. Vale ressaltar que este
texto está sendo sondado por um grande diretor nacional para sua montagem em
São Paulo, o que não seria uma novidade para este dramaturgo, uma vez que ele
já tem um texto montado em Fortaleza. Em relação à encenação, vamos discutir um
pouco a impressão que o Euler diretor deu ao texto do Euler escritor. E antes
de entrar mais profundamente na concepção, é interessante ressaltar uma marca
permanente nas encenações do grupo A Tua Lona: a demarcação do espaço para a encenação.
O uso de elementos intencionais, como sal grosso, sapatos, teclados de
computador, jarros ou maçãs para demarcar o espaço é notavelmente criativo. A
movimentação que é dada a essa demarcação, onde Constância adentra o espaço
cênico trazendo uma corda feita de retalhos de pano é simbolizada ali como uma
costura, um alinhavo do grupo com seu público, chamando a plateia para ser cúmplice
da história que ele (o autor) vai contar; não apenas como espectador, mas como coadjuvante
do enredo. Isso fica bastante evidenciado na encenação quando Constância
cumplicia com a plateia o seu dilema amoroso. O cenário, apesar de não
seguir a risca o que diz a rubrica original do texto, visto que falta a escada
da casa, por exemplo, é inventivo, prático e funciona bem dentro da trama e da
concepção do diretor. As duas janelas são valorizadas a altura, já que é delas
que saem todas as narrativas do casal apaixonado: hora a história saindo pelas
janelas, hora entrando, e hora impedida de entrar quando estão fechadas. Não
obstante, há de se observar que a mistura de materiais distintos não
devidamente trabalhados dentro de uma estética de unidade acaba
descaracterizando o cenário. Refiro-me a utilização dos canos que montam a casa
de Constância, que mesmo trabalhado com o sisal o seu revestimento a sua base
que não recebeu uma atenção aprimorada enverga deixando à mostra uma deformação
na estrutura da casa que não deveria existir. É preciso dirigir com o olhar ampliado,
atento aos mínimos detalhes. É interessante observar que o cenário em um espetáculo não
é nem mais, nem menos importante que seus outros elementos, como o ator, a maquiagem,
o figurino, a sonoplastia: todos eles devem se completar. Os figurinos compõem bem com
o cenário, embora o figurino de Zé caia no estereótipo do vaqueiro. A trilha
sonora é um achado, pois buscou o que há de moderno na música contemporânea
nordestina, sem deixar de ser regionalista. A maquiagem dialoga igualmente
bem com o cenário e com os figurinos, deixando perceptível o olhar do diretor e
sua impressão sobre a encenação. A interpretação dos atores, construída a partir
de impressões do realismo nordestino, é marcante e de ampla cumplicidade. A inter-relação
entre os dois, além de uma dicção tecnicamente definida, onde as palavras são
bem ditas e audíveis para quem escuta, nos proporciona o passaporte para viajar
confortavelmente na história; suas desenvolturas arregimentam o espetáculo para
cima e consolidam a concepção da montagem como bem definida. Senão, falta à
montagem aprimorar as passagens de tempo já tão bem executadas pelo grupo, a
exemplo do decurso da partida de Zé indo embora e deixando para trás sua paixão.
As passagens de cena dão nuances ao espetáculo e definem a situação psicológica
da próxima cena. Por isso é importante dar uma atenção especial para elas a fim
de não se correr o risco de deixar a encenação monocórdia. No mais, é
parabenizar o grupo A Tua Lona pela sua filosofia de trabalho, que exalta o
sentimento de que mesmo com as dificuldades técnicas, financeiras, humanas,
mesmo diante das adversidades que nos são impostas no nosso dia a dia, há que sempre
haver espaço para se produzir trabalhos belos, criativos, consistentes, profissionais
e apaixonantes, assim como Menina miúda, que caminha a passos largos para a sua
maioridade.
PS: Havia dito no texto de abertura do blog, que no final da crítica
indicaria o espetáculo a um amigo, se fosse bom, e a um inimigo, se este fosse
ruim. Mas acatando a sugestão do meu amigo Denys Leão, não utilizarei desse
artifício, vou apenas colocar as mangabas como referencial de qualidade.
Pois como diria a minha falecida mãe: “É prudente
dar ouvidos aos mais velhos...”
Ficha técnica do espetáculo:
Texto e direção: Euler Teles
Elenco: Cícero Júnior e Inês Reis
Figurino: Cícero Júnior e Inês Reis
Cenário: Cícero Júnior e Sâmara Gardênia
Produção: Sâmara Gardênia e Pâmella Lopes
Cabelo e maquiagem: Isadora Barreto
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Hummmmmm!!!! O blog está muito bom. Ao meu olhar, a crítica também foi muito pertinente. Gosto deste espetáculo!!!!
ResponderExcluirAcompanharei este seu trabalho aqui no blog, por achar de suma importância para a nossa reflexão sobre a produção teatral sergipana. Inspirado na sua falecida genitora eu diria: "É prudente ler o que os mais velhos escrevem...":)
Há
Braços
Sempre...!
Denys Leão
Enfim, alguém resolve bulinar a cena, e é perceptível a consistência técnica do proponente do referido blog quando se reserva a sutileza das palavras postadas em sua analise.
ResponderExcluirSerá de bom tom ressaltar que a falta de recursos para a produção local não é justificativa aceitável na composição da engenharia pobre de algumas montagens no cenário cênico sergipano. Até porque não se está questionando beleza, riqueza e nem sofisticação, e sim, A ARTE com zelo, responsabilidade e seriedade.
Vi isso aqui.
Ivo Adnil