NA PRAIA,1855: UM ESPETÁCULO DE ONDAS RASAS
Posted on sexta-feira, 3 de maio de 2013
Então, “oi nós
aqui travez”! Desta feita para resenhar mais um espetáculo sergipano, o espetáculo
Na praia, 1855 - a mudança da capital
sergipana, da Cia. Teatral História Encena, de Aracaju, que foi encenado
na noite chuvosa do dia 25 de abril de 2013, numa quinta-feira, no teatro
Lourival Baptista, para os alunos do EJA, do Colégio Unificado! Porém, antes de
iniciar, gostaria de esclarecer, mais uma vez, a filosofia do blog Língua Afiada, a fim de sanar quaisquer
dúvidas sobre o seu real objetivo. Ressalto que a ideia do blog é tão somente
fazer uma crítica sobre a montagem do espetáculo, valorizando-a (a crítica) como
um todo do ponto de vista puramente técnico. E nunca criticar a concepção impressa
pelo olhar do diretor. Pois essa é livre, e o blog respeitará
incondicionalmente a sua escolha de pensamento, ficando ao encargo deste que a
escreve somente apontar e comentar seus acertos e equívocos dentro da concepção
escolhida. Mas nunca sobre a impressão particular do diretor; esta caberá
apenas e tão somente ao mesmo. Outro ponto a esclarecer é que o blog não irá
rebater críticas ou comentários a despeito do que for escrito sobre os espetáculos.
Do mesmo jeito que terei liberdade para tecer os comentários, o leitor,
igualmente, poderá manifestar as suas opiniões, que serão respeitadas em seu
direito de se exprimir livremente, da forma e como bem desejar. Dúvidas
devidamente esclarecidas, vamos então afiar a língua! Começarei tecendo os comentários
a despeito do texto, base conceitual para qualquer montagem, dependendo da sua
concepção. Nesse excerto, é importante enfatizar
que tenho colocado como um dos critérios primários à construção da crítica ao
espetáculo a leitura do texto, para ter a dimensão da concepção do diretor
sobre este. No texto, Na praia, 1855 - a
mudança da capital sergipana, de Lina Nunes, a impressão que tive é que a autora
o construiu a partir de um processo de trabalho - que se assemelha muito com a
forma como construo os meus textos de teatro -, que é o de esboçar um roteiro
inicial e a partir dele criar o enredo, incluindo os diálogos e dando
características precisas à história a ser escrita. A sensação que tive é de que
Lina teve dificuldade de sair do roteiro, porque apesar dela ter sido precisa
nas informações históricas - com a ressalva de utilizar algumas expressões
anacrônicas, como “cutucar casa de
maribondo”, “cambalacho”, e “tomou um pé na bunda” -, falta ao texto
um arcabouço dramatúrgico. Visto que não estão presentes as entrelinhas, os subtextos,
as rubricas definidas e mais específicas, e a atmosfera psicológica. Faltam também
metáforas e poiesis, enfim, elementos básicos indispensáveis num texto de
teatro, independente do tema abordado. Esses elementos são essenciais para que
seja de fato dramaturgia. Outro ponto importante a ser ressaltado é a questão
do teatro brechtiano, citado como matéria prima do trabalho da companhia. Nesse
contexto, falta também ao texto o principal elemento do teatro épico brechtiano:
o personagem do Narrador. O mesmo não existe no texto de Lina, uma feita que as
duas personagens simuladas como sendo narradoras, de fato não narram a história,
e, sim, vivenciam. No teatro brechtiano ele, o narrador, se distancia dos fatos
para referir a história, ou seja, narrar, o que não acontece em Na praia, 1855 - a mudança da capital. A concepção do espetáculo deixa a impressão de estar inacabado, e
a sensação - metaforicamente falando - é de ser uma colcha de retalhos, onde os
tecidos de cores mais fortes sobrepõem os de cores mais fracas. O fato é que
não se percebe o tempo cronológico das cenas. Falta definição simbólica do
espaço reservado aos acontecimentos antigos, já que o espaço atual está
representado pela biblioteca. No presente, os personagens dum outro tempo
histórico transgridem o espaço temporal deste, sem nenhuma cerimônia. Isso contribui
nitidamente para que a plateia tenha dúvida do que está vendo, e onde a cena
está se passando, criando uma grande confusão em sua cabeça. Pude constatar esta
obviedade nos comentários que ouvi a meu redor. Nesse tipo de montagem os
espaços têm que ser bem definidos, pois pontua duas épocas totalmente distintas.
Sendo assim, cada cenário deve ser diferente em sua composição, como também os
figurinos e a interpretação dos atores, que deve ir pelo mesmo caminho. Enfim, é
a encenação que tem que oferecer o cardápio de símbolos para o entendimento da
cena. Faltou trabalhar mais as deficiências técnicas do espetáculo, tanto do
elenco quanto da encenação. Um momento onde foi possível perceber essa coerente
confluência ocorreu na cena da revolta de João Bebe-Água, em que o grupo se une
para cantar e dançar - agora completamente coeso -, pois o elenco se livra de
seus personagens anteriores para serem outros personagens, expressivamente diferentes,
dispostos ao coro. As passagens de tempo nesse espetáculo são imprescindíveis, visto
que são por conseguinte também passagens de época. É preciso trabalhá-las com bastante
cuidado, a fim de que a plateia possa compreender a história e se situar nela,
distinguindo o “hoje” do “ontem”. Por serem épocas diferentes precisam ser construídas
com olhares diferenciados. Porém, o grande achado da encenação de Gustavo Floriano
é a inserção das músicas e das danças folclóricas no espetáculo, assim como a
inserção dos atores-bonecos vestindo capuzes, que nos remetem aos penitentes. É
nesse momento onde podemos perceber a impressão do diretor, e uma unidade
cênica marcante. Neste o espetáculo cresce, não porque é musica e dança, mas,
sim, porque a cena está bem definida como elemento vivo da encenação, ficando
latente a diferença de um momento do outro. O cenário é extremamente poluído, tem coisa de mais para efeito
de menos. E novamente vai de encontro ao teatro épico de Brecht, visto que em
seu teatro (brechtiano), o mesmo compendie os cenários de seus espetáculos ao
justificável e ao indispensável. Outro problema apresentado, muito comum também
em outras companhias de teatro, em Sergipe, quando de suas confecções, é a
mistura de materiais diversos, como madeira, ferro, plástico, papelão, sem propiciar
a unidade necessária ao produto final. O fogão grafitado presente no espaço
cênico é um objeto incompreensível. Até mesmo os quadros pendurados com imagens
da Aracaju antiga reportando-a ao passado - artifício muito usado, inclusive, no
teatro brechtiano -, não surte nenhum efeito, já que não é valorizado. Os
mesmos poderiam ser elementos inseridos na construção do cenário do espaço
antigo, para facilitar que a plateia possa compreender o espetáculo cronologicamente.
A impressão é que o cenário foi muito mais arranjado do que concebido. Os adereços seguem a mesma linha ilógica do cenário, e não se
encaixam numa unidade; a sua utilização chega a beirar o descaso. Uma
demonstração nítida de seu mau aproveitamento, ou o uso feito de maneira descuidadosa,
se dá na cena em que o livro que uma das personagens carrega nas mãos é um
livro, salvo engano, infantil, totalmente aleatório ao contexto. Os figurinos estão bem definidos, entretanto é notória uma
concepção mais bem acabada e de qualidade nos trajes da época antiga, que destoa
completamente do figurino da época atual. Fica igualmente o registro do desvelo
em não fazer a troca total de figurino do personagem Clemente para o personagem Comendador
Travassos, nos passando a impressão de que é Clemente (o tio) que está ali o tempo todo. A luz, assinada por Sérgio Robson, não contribui na
construção da cena, ao contrário, atrapalha, pois não ilumina os quadros que são
um importante referencial da época antiga. É também pouco resolutiva na cena das
fofoqueiras representadas pelas cabeças dos bonecos, que ficam às escuras. Ainda
tem momentos em que os atores ficam fora dos focos. A maquiagem é bem frugal e falta uma composição mais definida de
cada personagem. Esse item é habitualmente considerado para a composição dos
personagens, entretanto nessa montagem este quesito passa despercebido. A trilha
sonora é ótima, e bem executada pelos
músicos e pela cantora, embora o sintetizador, cujos efeitos são primários e
irrelevantes, destoe bastante dos instrumentos percussivos. O trabalho dos
músicos é somente prejudicado quando os atores se juntam a eles para cantarem.
Nesse momento a música decai por não se harmonizar com o elenco, que precisa
afinar mais o canto, assim como na mesma proporção necessita afinar as
coreografias. Em relação à interpretação,
no geral o elenco está bem nivelado em suas atuações, com uma boa
articulação vocal, dicção bem trabalhada e com boa projeção, onde é possível compreender
bem o que os personagens falam. Ressalto como um grande êxito desta companhia,
visto que é uma deficiência bastante acentuada nos grupos e companhias de
Sergipe, que erroneamente desconsideram a relevância do trabalho técnico específico
da voz, imprescindível à atuação. Considero oportuno analisar, mesmo que não
profundamente, o desempenho individual de cada ator: Gustavo Floriano emociona
como João Bebe-Água, realizando uma interpretação vigorosa e sem exageros; Lina
Nunes convence como Zoé, mantendo uma postura sequencial do personagem, e
conduzindo com bastante habilidade a cena; Sandy Soares, que assume a
personagem Cléo, também desempenha bem sua função, embora seu personagem em
alguns momentos oscile indefinido, com variações: às vezes se comportando e
falando como uma criança, outras vezes assumindo o comportamento de um adolescente.
Os atores Thiago Santana, que faz o Inácio Barbosa, e Roni Mendonça no papel do
Barão de Maruim, se destacam mantendo uma postura peculiar da época. A ótima impostação
da voz também é uma qualidade da dupla, e sempre que aparecem alavancam o
espetáculo para um nível mais alto. O ator Solimões que faz os personagens
Clemente, inicialmente, e depois o Comendador Travassos, os constrói com
características bem diferenciadas, porém marcantes e bem definidas. Já o ator
Joel Costa, que faz o personagem Antônio (zelador) e o Comendador Botto,
precisa ser melhor construído, suas atuações são ingênuas em alguns momentos, como
ocorre igualmente em suas desmontagens, que antecedem a sua saída do espaço
cênico. Como ponto positivo destaco o seu esforço em desempenhar com dignidade -
embora com todos os contratempos - o papel que lhe foi incumbido. Agora, sem dúvida,
o personagem mais bem construído do espetáculo, além do João Bebe-Água, é o
padre Barroso, desempenhado pelo ator Estevão Andrantos, que conseguiu dar uma
força e uma valorização a um personagem secundário na história. O Padre Barroso
possui uma voz, um caminhar, uma postura bem definidos para um Pontífice, a tal
ponto que no início custei a perceber que era o referido ator que representava o
Padre. Prova concreta de um personagem bem construído, distanciado dos traços
marcantes do ator supracitado. Abro agora um parêntese para tecer alguns comentários
a despeito do teatro e a educação, ou ainda o teatro educativo, assumido
pela companhia como sua linha de trabalho. Há
mais de 20 anos trabalho com teatro educativo, são mais de uma dezena de espetáculos
temáticos sobre variados temas, como DST/aids, alcoolismo e drogas, saúde do
homem e da mulher, saúde mental, violência, segurança no trabalho, empreendedorismo,
e outros na área do meio ambiente. Durante todo esse tempo pude aprender muito
como trabalhar com essa linguagem do teatro pedagógico, que é bem específica. Pois
além de cumprir o objetivo principal do teatro, que é o de divertir, tem também
o de informar, educar e comunicar. Como a ideia de trabalhar com educação faz
parte da proposta da Cia. História em Cena, é preciso atentar para algumas situações
que acontecem no espetáculo que fogem completamente do conceito educativo. O
primeiro é o uso de músicas midiáticas, de notável mau gosto, como a "Ah, LELEK LEK LEK LEK" ou ainda a Nada, nada, nada, que só servem para
emburrecer as pessoas, que desconstroem ao invés de construir, que não
contribuem em nada para o processo formativo pautado na motivação de uma
sociedade crítica/criativa. O segundo é a ridicularização do deficiente, como
acontece com o personagem Antonio, que pode ter sofrido um derrame ou ter trazido
essa deficiência de nascença, mas que foi premiado com uma expressão corporal
que se assemelha com a de um zumbi ou de um desses personagens de filme de terror.
No teatro educativo há que se trabalhar o personagem a partir da dificuldade
provinda do seu problema de saúde, e nunca usar o artifício da doença para
ridicularizá-lo a fim de conquistar a plateia com o riso pelo riso; o
espetáculo não precisa usar desta artimanha, visto que tem uma força cômica que
já está presente no texto, como por exemplo, na relação de Zoé com Cléo, na
relação dos políticos da época e na cegueira do padre Barroso. Foram cenas que
não têm nenhuma apelação, mas que arrancaram boas risadas da plateia. No teatro
educativo não se deve reforçar preconceitos, nem ridicularizar minorias. Como
formadores de opiniões e artistas que somos, somos ainda mais responsáveis pelas
ações que realizamos, especialmente de cunho educativo. Assim, evitaremos
reações e comentários evasivos e em nada construtivos, como os que ouvi quando da
saída de alguns alunos do teatro, que comentavam entre si sobre o espetáculo -
mesmo sendo a maioria comentários positivos - de forma pejorativa, afirmando que a cena que eles haviam gostado
mais era a da “nêga peidona”!, referindo-se
ao momento de afecção flatulenta da personagem Zoé. Por fim, conhecendo o ator
e diretor teatral Gustavo Floriano, e sabendo do seu potencial como diretor em
outras montagens, a exemplo do instigante e engraçado More Movies, posso imaginar as dificuldades que o mesmo encontrou
para remontar este espetáculo já dirigido anteriormente por outro diretor. Essa
é a opinião de alguém que também já vivenciou processos de remontagem, e sabe o
quão complexo é esse tipo de processo. Agora, após ler esta crítica, o grupo
pode estar se perguntando: “como pode um trabalho com tantos problemas técnicos
ter provocado tamanha alegria à plateia, que inclusive pediu bis? Respondo sem
pestanejar: a energia do grupo, que foi determinante aliada ao potencial dos
atores que não deixaram a peteca cair, e, claro, a música e as coreografias que
deram um toque preciso para arrebatar o espetáculo. No mais, é o grupo tocar o
barco pra frente navegando sobre ondas mais profundas, pois a ideia é muito
bacana, e vem suprir uma lacuna deixada por nosso saudoso Nilton Lucas que
trabalhava com este tipo de projeto direcionado ao público estudantil. Fiquei
feliz de ver numa quinta feira de chuva, o teatro Lourival Baptista lotado de
estudantes assistindo teatro! E nesse ponto de empatia entre grupo e plateia, o
espetáculo não decepcionou.
Direção: Gustavo Floriano
Texto: Lina Regina Nunes
Cenografia: Gustavo Floriano
Figurino: Abel Wesley e Lina Regina Nunes
Iluminação: Sérgio Robson
Coreografia: Coletiva
Preparação Vocal: Bel Nunes
Direção Musical: TonToy
Elenco: Sandy Soares (Cléo), Tihago Santana (Inácio Barbosa), Li Nunes (Zoé), Gustavo Floriano (João Bebe-Água), Roni Mendoça (Barão de Maruim), Solimões (Clemente e Comendador Travassos), Joel Costa(Antonio e Comendador Boto) e Estevão Andrantos (Padre Barroso)


Raimundo,
ResponderExcluirPara além da critica, o que você também faz é aula, pela forma detalhada e didática. Sobre a análise acima, fiquei motivado a assistir o espetáculo. Acredito que, ao contrário do que muita gente pensa, a critica, mesmo quando não é favorável, pode ampliar o público.
Afinal, melhor um trabalho com avaliação pouco satisfatória, mas divulgado, do que passar batido e poucas pessoas ficarem sabendo da sua trajetória.
Parabéns! A você, ao pessoal do teatro e ao público.
Caso os comentários aqui postados concorressem à cotação de mangabas, daria "cinco" mangabas para o comentário de Zezito! (risos) Adorei! Coincidentemente, numa conversa com o ator e diretor Gustavo Floriano, falei que me senti ainda mais "motivada" (sim, usei a mesma palavra) a ir assistir ao espetáculo, após a crítica. Além de concordar com o que escreveu o supracitado autor, acrescento que a crítica é uma espécie de termômetro que vai nos permitir saber como o nosso trabalho foi percebido, não apenas sob uma perspectiva descritiva, mas também de avaliação técnica. O que difere uma crítica argumentativa de uma opinião é a experiência e o amplo conhecimento sobre o assunto a abordar que tem quem a faz. Indubitavelmente, nessa questão, Raimundo Venâncio é incontestável!
ResponderExcluirO importante mesmo é entendermos a disposição do companheiro Raimundo Venâncio que se coloca tecnicamente e com bastante isenção de pessoalidade em sua crítica.
ResponderExcluirTenho dito a cena pulsa, e visualizar uma engenharia cuidadosa é nosso papel tanto como Produtores e ou Diretores e por que não ter preocupação em nossa atuação.
aplausosss...e AVANTE.