O NATIMORTO, UM ESPETÁCULO VIVAZ
Posted on terça-feira, 27 de agosto de 2013
A introdução aqui servirá para um breve esclarecimento aos amigos e companheiros teatreiros de Sergipe quanto ao tempo em que estive ausente desde a última crítica publicada, em meados de abril. Pois é, gente, são quase três meses sem uma criticazinha sequer... E os motivos são diversos: a falta de espetáculos em cartaz, a falta de convites das próprias companhias e grupos para que eu afie a língua em seus espetáculos e, claro, a dificuldade de se escrever uma crítica teatral. Pensem num negócio difícil! Tanto quanto dirigir um espetáculo de teatro, acreditem. E no caso da crítica que me proponho a fazer, analisando cada item que compõe a montagem do espetáculo, se torna ainda mais complicado. Portanto, vamos combinar o seguinte: a partir de agora não haverá prazos para publicação das críticas, nem rigidez nas datas. Ficaremos somente à mercê das conspirações teatrais favoráveis que a natureza nos oferecer, certo? Dito isto, vamos ao que nos interessa que é afiar a língua em mais um espetáculo sergipano. Desta feita O Natimorto, um musical silencioso, do Grupo Caixa Cênica, após o encerramento de sua temporada ocorrida no dia 01 de agosto de 2013, numa quinta-feira chuvosa, na Casa Rua da Cultura, em Aracaju. O texto conta a história de um agente musical assexuado e de uma cantora lírica desconhecida. Acreditando ele estar diante de uma cantora extraordinária, dona de uma voz ímpar, ao ponto de a sociedade não compreender a sua arte, ele propõe a separação de sua esposa e o confinamento dos dois num quarto de hotel como forma de se resguardarem desta sociedade insensível, levando-os a um cuidado mútuo. Com diálogos ácidos e curtos, por vezes repetitivos, e frases de efeito, o autor vai nos aprisionando naquele quarto de hotel junto às personagens, nos levando a mergulhar num suposto vazio interior que na verdade não existe, pois tudo ali naquele recinto pulsa devastador. As personagens discutem sobre temas variados: vida, morte, paixão, sexo, cuidado, cigarro, tarô sempre a partir das dúvidas e das incertezas, tendo como pano de fundo a leitura diária das cartas do tarô e as imagens apelativas das carteiras de cigarro e suas supostas semelhanças. O agente musical vai tentando imprimir seu ponto de vista fixo radical para a cantora que oscila entre a confusão e a perplexidade, e às vezes admiração, sobre as coisas que ele diz. Isso leva as personagens a vários desencontros, pois, além disso, ainda vem à tona vez em quando as histórias antigas de infância e adolescência vivenciadas pelo agente, e que coloca a cantora em cheque com a realidade levando-a a uma reflexão no mínimo instigante sobre tudo. A plateia por sua vez atônita reflete junto com as personagens sobre tudo mesmo. O texto nos leva a sensação de vazio, mas que na verdade o suposto vazio é um transbordamento de dúvidas e incertezas. Isso tudo costurado com maestria dentro de uma atmosfera de suspense que prende a gente na perspectiva de querer saber onde tudo isso irá dar. A concepção do espetáculo é uma primazia, considerando que todos os elementos utilizados por Diane Velôso são verossímeis, assim como há uma relação íntima entre eles. A utilização da linguagem do cinema dos quadrinhos e da fotografia dá uma extensão tridimensional e eficaz a sua concepção. Isso sem falar dos simbolismos que foram criados para que houvesse a comunicação imediata e precisa com o expectador, pois é nítida a empatia da plateia pelo trabalho. A euforia e a emoção das pessoas no final do espetáculo deixam transparecer que ali rolou o tão esperado feedback. Da perspectiva técnica, Diane treina seu elenco a partir dos elementos do teatro antropológico: as cenas e os movimentos repetidos à exaustão, a mobilidade na imobilidade, o grau de dificuldade na realização de algumas movimentações, os movimentos extra cotidianos, enfim, dão a dimensão dessa característica. Tudo bem treinado e bem condicionado, articulado a serviço da encenação. E, como cereja do bolo, pitadas nostálgicas e insinuações de cinema nonsense e cinema noir. Não há imprevisibilidade no desenrolar do trabalho, visto que as possibilidades criadas vêm de toda parte. Diane consegue compreender o lado quadrinista do autor e transporta o quadrinho para dentro do palco. A cena inicial dos dois carregando suas malas, dialogando parados na lateral com entrada para o cenário nos dá a precisa dimensão de que caminham numa estrada indo em direção ao hotel. Nesse momento, definitivamente, vê-se uma imagem de quadrinho. Ou ainda a trilha sonora que em determinados momentos do espetáculo entra soando como uma ópera muda, como o som visual dos quadrinhos que são as onomatopeias, ou ainda os blecautes mais rápidos do que os normais nos fazendo imaginar o passamento de uma página para a outra, ou seja, o micro tempo de inércia de passar a folha. O clima noir do espetáculo é construído com uma ótima luz e uma fumaça tênue bem colocada que passa longe de ser apenas uma fumacinha para dar efeito, mas que está ali representada para criar a penumbra necessária para o clima imprescindível de suspense, e que representa também a fumaça do cigarro que os personagens fumam desesperadamente sem parar; a sensação que causa é a de estarmos numa sala de cinema. Outro ponto marcante do trabalho é o enquadramento imaginário que Diane consegue dar as cenas, fragmentando-as a tal ponto de visualizarmos fotografias. É como se estivéssemos a todo instante ouvindo flashes fotográficos. Diane abusa da sensibilidade e criatividade a cada elemento colocado em cena, a exemplo da personagem da esposa dentro da televisão que, simbolicamente, tem uma ligação com a mulher casada, e traída, que fica em casa na companhia da tevê onde deposita todas as suas angústias e conflitos. O sangue na cama, totalmente cinematográfico, o próprio truque utilizado pelo ator para fazê-lo aparecer foram saídas bastante criativas. Ou ainda a cena da cama girando ao som de uma música de ninar, nos projetando a imagem perfeita de uma caixa de música que, por sua vez, simboliza o amor, o presente, a pessoa amada. Como também a cena do natimorto, onde um simples pedaço de tule vira uma placenta para o natimorto aparecer em cena. Ou o definhamento do agente de música quando perde o cabelo. Ou mais ainda a cena dramática e apavorante dos espasmos sofridos pelo agente. E a genial cena do esquartejamento simbolizado pelo uso do pincel atômico utilizado pelos assassinos psicopatas para marcar as partes do corpo da vítima que irão ser cortadas. Diane extrapola o convencional com uma estética frontal, onde as falas parecem ser ditas especialmente ao público que as ouve em profundo silencio. E contradiz uma das regras básicas da atuação: a de que “não se pode dar as costas à plateia”. Na concepção de Diane Velôso as personagens passam minutos a fio dizendo suas falas totalmente de costas para esta dando-nos a sensação de que o que estamos vendo ali é algo tridimensional. Em suma, a diretora Diane Velôso foi feliz em tudo que colocou no espetáculo carimbando, assim, sua direção como primorosa e de fino acabamento. O cenário é um show à parte. Além do trabalho esmerado e criativo das peças de designer arrojado, as combinações de cores e seus móveis utilitários trazem à cena “o elemento surpresa”, que têm vida própria e mantém uma relação direta com cada personagem e a atmosfera que vive. A cama e os outros móveis passam a ser uma extensão das ações das personagens; é como se em determinado momento o movimento da cama, por exemplo, fosse um complemento de suas ações. Os adereços seguem no mesmo padrão de coerência e qualidade. A tevê é notável e não ficou tecnológica. A peruca usada pela personagem combina com sua personalidade, e a dedeira utilizada para segurar o cigarro é um charme à cena. Os figurinos estão bem definidos e a transição que a figurinista fez para a mudança dos mesmos segue perfeitamente a atmosfera das cenas. As cores e os modelos criados mostram a perfeita compreensão da figurinista com a concepção da diretora: aqui os figurinos não são meras fantasias, mas elementos contextualizados com a encenação. A maquiagem segue o padrão de qualidade - que é uma máxima em todo o espetáculo, e pontua muito bem os momentos quando as personagens ainda transitam numa atmosfera angustiante. Ou na cena em que a personagem da cantora chega agredida. Nesse momento, a maquiagem mais mórbida nos dá a sensação de ter entendido o que houvera se passado com a cantora lírica em sua visita ao maestro. A luz é mais um dos pontos altos do espetáculo. Sé é certo que toda luz é importante numa montagem, nessa ela é imprescindível! Especialmente por se tratar de uma peça de suspense, a luz assume o papel de uma terceira personagem, totalmente visível e necessária. O iluminador constrói uma luz que também quer se expressar, quer se comunicar e faz isso com muita competência. O âmbar meio morto, meio turvo, sei lá o quê, nos consome com sua penumbra inquietante, e até o teatro de sombras sai do convencional e nos propicia uma sombra diferente em perspectiva que nos lembra o sombreado dado aos desenhos nos quadrinhos. A luz é concisa e de qualidade. A trilha sonora chega como mais um potente e protagonista elemento da encenação. E seguindo a lógica da construção cênica de não usar nada convencional, a música também vai nessa linha e até os ruídos musicais são extra cotidianos. A trilha traz uma sonoridade diferente que se assemelha à música atonal de Schoenberg. Tanto a sua composição como a execução da mesma são primorosas. A interpretação é igualmente um ponto ímpar do trabalho. Diane Velôso faz duas personagens, uma em cena e outra em off, e nos enche os olhos com personagens bem compostas e bem distintas. Diane consegue criar a linha tênue de uma e de outra, e separá-las conforme as suas características: a esposa megera pelo acaso destoa bastante da cantora lírica. Sua impostação de voz e sua dicção são tecnicamente muito boas, as palavras são bem ditas e suas falas audíveis. Agora é preciso destacar o crescimento técnico do ator Thiago Marques que nos presenteia com uma interpretação vigorosa, de arrepiar. A verdade com que carrega dentro de sua personagem nos dá a dimensão de estarmos diante de um ator em sua plenitude. A cena dos espasmos sofridos pela personagem, onde ele - o ator - gira numa loucaria desenfreada é algo de impressionar. Sua dicção é esplendorosa e merece o destaque. E isso nos faz pensar como artistas de teatro que somos que nem tudo está perdido. E como é bom fazer teatro. E como é bom fazer teatro de qualidade. As considerações finais que faço são as seguintes: é provável que alguém esteja se perguntando: Que espetáculo perfeito e maravilhoso é esse? Ele existe? Existe. É o Natimorto, do Grupo Caixa Cênica, de Aracaju-Sergipe. Claro que aconteceram pequenos deslizes na execução da luz. Também aconteceu um ou outro errinho na sonoplastia. Óbvio que aconteceram alguns lapsozinhos dos atores. Que aconteceram pequenos imprevistos no espetáculo, o que não deixa de ser uma coisa comum, mas que foram efêmeros diante de tantos acertos que o espetáculo apresentou, passando imperceptíveis. Sendo assim, posso afirmar sem medo de me decepcionar que está surgindo uma grande diretora em Sergipe. E que esse é sem dúvida mais um grande espetáculo do Grupo Caixa Cênica. Um espetáculo sergipano made in Brasil, tipo exportação, para gringo nenhum botar defeito. Um espetáculo dukaralho! E para que não percamos o costume, viva o teatro sergipano de qualidade!
Direção: Diane Velôso
Concepção: Diane Veloso e Maicyra Leão
Realização: Grupo Caixa Cênica
Dramaturgia: Lourenço Mutarelli
Atuação: Diane Veloso e Thiago Marques
Produção: Leila Magalhães
Coordenação Técnica: Denver Paraizo
Iluminação: Sérgio Robson
Trilha original e sonoplastia: Alex Santana, Alisson Couto e Leo Airplane
Figurino: Isabele Ribeiro
Cenário: Denver Paraizo, Fábio Sampaio e Diane Velôso
Maquiagem: Diane Velôso
Design Gráfico: Thiago Macêdo
Assessoria de Imprensa: Manoela Velôso
Vídeos: Gabriela Caldas e Sérgio Robson
Edição de Vídeo: Lu Silva
Fotografia: Victor Balde



Muito particular seu ponto de vista.Descordo de alguns elementos...
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