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A LIÇÃO, UM DEVER DE CASA BEM FEITO

Posted on segunda-feira, 7 de outubro de 2013


A introdução. Tenho sido procurado por algumas pessoas que comentam a despeito da forma como estou fazendo as minhas críticas, obedecendo um roteiro que passa pelo texto do autor, pela encenação do diretor, pela atuação dos atores, além dos itens técnicos figurinos, cenário, maquiagem, etc. e tal., e como cheguei a esse formato. Aí, me veio o interesse de escrever como surgiu a ideia de fazer as críticas seguindo, então, essa lógica. Então vamos nessa! No ano de 1999, participei juntamente com o diretor de teatro, carioca, Sidnei Cruz, do Festival Internacional de Londrina, Paraná. Na ocasião, fui ao festival para assistir aos espetáculos, e também participar de alguns dos vários workshops ofertados, que aconteceram durante o festival. Optei por fazer sobre Crítica Teatral, cujo palestrante era um inglês, Ph.D. no assunto. Por ele não falar o português, o workshop foi simultaneamente traduzido através de fones de ouvidos que os participantes usaram, como é de praxe nessas ocasiões. Lembro-me claramente que o estudioso começou a sua palestra perguntando quantos ali naquele recinto tinham curso superior em crítica teatral. E para a minha surpresa nenhuma das pessoas que estavam naquela sala para o workshop tinha. Isso, levando em consideração que a plateia era em sua maior parte composta por críticos de teatro de vários jornais dos mais renomados no Brasil, como Sérgio de Carvalho, do jornal Folha de São Paulo, e Bárbara Heliodora, do jornal O Globo. Continuando a sua fala, ele prosseguiu dizendo que em seu país a crítica teatral era um curso superior de cinco anos, com disciplinas que iam desde interpretação de texto, direção teatral e interpretação à iluminação, eletricidade, maquiagem, figurinos, cenários, entre outras, e que nossas críticas na verdade pareciam ser mais resenhas do que uma descrição pautada em critérios técnicos. Devo admitir que, já na época, concordei um pouco com o que ele falou. Depois disso, em 2002, fiz uma oficina de crítica teatral no conhecido Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, no Ceará, em sua nona edição, com o ótimo e já citado crítico Sérgio de Carvalho. Então quando pensei por onde começar as minhas críticas lembrei logo dessa experiência que tive lá em Londrina, somada a que tive em Guaramiranga, e resolvi criar esse roteiro de descrição; um roteiro que julgo desafiador e também muito difícil de construir. Mas no fim encarei, e a aceitação tem sido muito boa. Dito isto, vamos agora, mais uma vez, afiar a língua em mais um espetáculo sergipano! Desta feita, o espetáculo teatral A Lição, de Eugène Ionesco, montagem da Cia. de Teatro Stultifera Navis, em temporada na Casa Rua da Cultura. O texto A Lição, de Eugène Ionesco, é em ordem cronológica o terceiro texto do grande acervo do autor. Conta a história de um professor polivalente, com vasto conhecimento em várias áreas da educação, entre elas: Aritmética, Filologia e Línguas, e que dá aulas preparando alunos interessados em conseguir seus mais ambicionados títulos. Tem a companhia inestimável de uma governanta onisciente, que o conhece muito bem na intimidade. Com a chegada da próxima aluna, uma trama psicológica se desenrola entre eles, através de diálogos absurdos, numa atmosfera cômica e dramática ao mesmo tempo. O texto ainda aborda essa busca incessante do ser humano pelo conhecimento de suas afeições e afinidades, critica os sistemas educacionais ultrapassados, com suas fórmulas e frases feitas que de nada servirão ao ser humano no seu cotidiano, e a luta e ânsia exacerbadas das pessoas em querer conseguir cada vez mais seus títulos acadêmicos. O romeno Ionesco é considerado um dos autores mais importantes do Teatro do Absurdo, tendo escrito outras importantes dramaturgias - a exemplo do texto O Rinoceronte, cuja montagem tive a oportunidade de assistir no final de um dos cursos de teatro da CAL - Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro -, juntamente com o espanhol Fernando Arrabal, que conheci quando da montagem de O Arquiteto e o Imperador da Assíria, a qual dirigi com dois importantes atores da velha guarda, Isaac Galvão e o saudoso Luís Carlos Reis, em 1998. No geral, os textos de Ionesco ridicularizam o ser humano e a sua insignificante existência. Tal como Arrabal não gostava de que sua dramaturgia fosse intitulada teatro do Absurdo, e sim teatro Pânico, Ionesco também não gostava desse termo, e dizia que seu teatro estava mais para insólito do que para Absurdo. A Lição nos impressiona por sua extrema atualidade, e nos amedronta diante de tal voraz cotidiano. A concepção de Lindemberg Monteiro é construída a partir do teatro de sala, modalidade contemporânea de uso de espaços alternativos para a encenação. Para adentrar a sala do professor, o espectador passa por um trajeto que na verdade é um labirinto sensorial e visual que já anuncia supostamente o ambiente onde se dará o aprendizado. Os livros jogados ao chão insinuam os acontecimentos que estarão por vir, levando o espectador a compreender que cada livro exposto aleatoriamente no solo representa pertencer a cada aluno que por ali passou, e onde teve seu trágico fim. A sala toda branca, com seus móveis todos brancos, e uma luz que no geral é âmbar, nos segrega dentro de uma atmosfera trágica risível e inquietante. A movimentação do professor, assim como a da governanta, passando por cima dos livros, é simbolicamente absurda; o passar por cima do saber vai contraditoriamente de encontro ao discurso do docente em defendê-lo com toda a força. O teatro de sombras, que é um artifício bastante comum, é bem utilizado para mostrar o outro espaço da casa onde fica a governanta, sua parceira e cúmplice. A cena da personagem tocando acordeom no ambiente sombreado é um raro momento de delicadeza do espetáculo. A entrega do punhal na entrada a um dos espectadores para a grande cena do assassinato é absurdamente genial. Lindemberg coloca o espectador no centro da cena, e ele, inconscientemente, passa a ser cúmplice do momento em que se dará o homicídio, levando-o posteriormente a perceber o quão absurda, e ao mesmo tempo surpreendente, é a sua participação no inusitado crime. Lindemberg, no entanto, peca na falta de cuidado com todo o resto do espetáculo, em especial a parte técnica, principalmente no que se refere ao figurino, aos adereços e a maquiagem, faltando unidade na concepção geral. A interpretação dos atores desarmoniza. Apesar de não comprometer tanto o espetáculo, o desnível técnico de interpretação entre os atores é notório. Lindemberg constrói uma personagem coerente e eficaz, e tem o domínio sobre a encenação. O seu professor nos transporta para um indivíduo obcecado pelo que faz; seus trejeitos e sua movimentação são ótimos, sem falar nos cacoetes magistrais e precisos que executa com primazia. Sua personagem é grande, sua expressão facial é um show, sua voz é ótima, bem articulada, com um texto bem dito. Uma personagem construída com qualidade. Pode-se dizer que nesse espetáculo temos um ator em toda a sua plenitude. A atriz Thais Goes, que faz a aluna, se esforça em desempenhar bem o papel, mas sua limitação técnica impede o seu avanço. Ainda assim, consegue nuances interessantes, como a transição de sua chegada cheia de expectativas para a aula com o professor, até a sua apreensão total com o desenrolar dos acontecimentos. Nesse momento, fica claro o esforço da atriz em contribuir, mesmo com todas as dificuldades técnicas, para a sua personagem. Sua voz é bem colocada e bem articulada, mas falta uma interpretação mais vigorosa. Sandra Azevedo, no papel da governanta, interpreta uma personagem que precisa ter uma força interior bem maior da que se apresenta. Apesar de a governanta ter poucas inserções, ela tem uma forte e significativa ligação na trama. É ela quem esconde os corpos, que os toca movimentando-os de lugar, é ela quem vem alertar o professor sobre os deslizes, afinal, ela é sua conivente. Falta cumplicidade da governanta com o professor. A referida atriz tem um olhar dramático, expressivo, mas pouco explorado. É uma personagem que pode vir a crescer muito no espetáculo. Por outro lado, sua voz é bem articulada, e com um bom volume. No geral, os atores têm um bom desempenho vocal, e existe uma sinergia entre eles, entretanto, há que se trabalhar o desnível técnico que existe. O cenário. Existe uma dualidade muito interessante, onde todos os objetos convergem para uma ideia que vai da sala de aula à sala da casa do professor, que não é propriamente uma sala de aula tradicional, mas é o espaço onde acontece a lição. As cadeiras postas para a acomodação da plateia dentro do cenário são nota 10! É como se a plateia fossem os alunos. Porém, a arquibancada destoa desse conceito, pois quando colocada modifica o cenário em si, e nos dá a dimensão de espaço cênico, e não de uma sala de aula. O ponto alto do cenário, no entanto, é a projeção de imagens sobrepostas ao discurso do professor que nos situam no texto dito. Os figurinos são bem compostos nas cores e nos modelos da época em que acontece a história, e também obedece a essa dualidade, principalmente o figurino da aluna que não é um figurino escolar habitual, mas nos remete a ele. A bonita faixa do vestido da governanta comprimindo sua barriga deixa a atriz contida, o que acaba contribuindo para manter a sua postura. O figurino do professor também é muito bem definido, e com uma discreta semelhança com o vestuário de um médico - na Europa o professor possui esse status, tem uma elevada importância social. Os adereços são simples, dentro da estética do diretor, onde a cor branca predomina. Destaque para o punhal de prata que caracteriza bem a época e conflui harmoniosamente com o conjunto. A maquiagem é quase imperceptível nas personagens, e no caso de Maria este elemento é imprescindível. Por conta de sua idade madura, seria necessária uma maquiagem de envelhecimento, dando o contorno de que a personagem não é mais nenhuma jovenzinha; falta uma caracterização melhor definida. A maquiagem da aluna praticamente inexiste. A exceção é a maquiagem do professor, essa, sim, compõe bem sua caracterização, assim como o formato do seu cabelo e a inserção do bigode. Muito bom. A luz converge bem com o espaço, é bem utilizada no teatro de sombra, e as interferências dos efeitos e dos blackouts acontecem de maneira afinada. Há, durante o espetáculo, pequenos lapsos na sua execução. A trilha sonora é discreta, pouco importante para o espetáculo. Falta-lhe dar a sua devida importância como elemento primordial da encenação. Considerações finais. Penso que A Lição é um espetáculo bem concebido, com atores interessados, algumas ideias primorosas, e alguns problemas técnicos bem fáceis de solucionar, comuns em qualquer espetáculo de teatro. Mas, sem dúvida nenhuma, um ótimo espetáculo. Mais uma digna produção sergipana que merece ser vista por todos os sergipanos. Fico muito feliz quando assisto a um bom espetáculo, bem dirigido e com atores esforçados. Enfim, A Lição, da Stultifera Navis, é, nesse caso, uma lição que muito bem pode ser copiada.

FICHA TÉCNICA
Direção: Lindemberg Monteiro
Adaptação de texto: Tom Myers
Elenco: Lindemberg Monteiro (Professor)
              Sandra Azevedo (Governanta)
              Thais Goes (Aluna)
Criação de vídeo: Bruno Parissoto e Gessana Shakti
Criação e operação de iluminação e som: Ícaro Olavo
Operação de projeção: Marcos Matos 





4 MANGABAS PARA "A LIÇÃO"



1 Comment

Discussion

  1. Parabéns pela crítica do espetáculo A Lição. Quando eu estava lendo a crítica parecia que tinha conversado com você muitas coisas sobre o espetáculo, e concordo com os pontos citados, é foi até interessante que já estava discutido isto com a companha e elenco da Lição, só veio para reforça cada vez mais.

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