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C(S)EM NELSON, QUEM VIU?

Posted on sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A introdução. Penso que a crítica é um instrumento muito útil num trabalho artístico, pois propõe uma visão técnica acerca do trabalho do artista avaliado, uma visão que não é a dele. Penso também que a crítica é algo muito difícil de ser digerida. A verdade é que ninguém gosta de ser criticado, eu mesmo odeio! Mas adoro dar os meus pitacos no trabalho dos outros, como tenho feito em minhas críticas. E assim é todo mundo. Por mais superior que seja o ser humano, este há de se incomodar em ser avaliado. Penso igualmente que a vida de crítico teatral não é fácil. Imagine você numa situação em que tenha que escrever sobre o espetáculo de um grande amigo, diretor de teatro, um quase irmão... Se o espetáculo for bom aí é moleza, você até estreitará mais a sua amizade. Agora, se o espetáculo for ruim você entrará numa tremenda saia justa, e estará suscetível até de perder o grande amigo. Por isso que venho tentando ser extremamente imparcial ao fazer as minhas críticas. E já sabendo que cruzaria com amigos no caminho, elaborei este roteiro de avaliação técnica que analisa item por item a partir do que vi ante a ideia do encenador. Tenho bem claro comigo que dentro desta perspectiva de fazer a crítica dessa forma, o que menos conta é o que eu penso, o que eu acho ou o que eu faria, pois o que está sendo avaliado não é o meu trabalho, e, sim, o do encenador que dirigiu o espetáculo do qual estou criticando. Por isso, vocês não vão ver em minhas críticas a minha visão pessoal sobre o trabalho, mas a análise puramente técnica acerca deste. Porém, tenho encontrado em alguns espetáculos que assisti elementos nas encenações que se identificam completamente com a minha forma de dirigir. E o que me faz vibrar ainda mais entusiasticamente - o que é natural - são as semelhanças. Agora, se um diretor encena um espetáculo dramático, e em determinada cena totalmente dramática os atores não estão correspondendo à dramaticidade que a cena pede, por alguma deficiência técnica ou outro problema qualquer, e eu exponho e falo como pode a cena ser resolvida tecnicamente, eu não estou dando uma opinião pessoal. Eu estou apresentando uma análise técnica sobre o que vi. E tenho que admitir que mesmo numa avaliação técnica haverá alguma discordância, visto que não existe uma única opinião formada sobre as coisas. E é essa a árdua função da crítica. Cabe aceitá-la, pois como diz o sábio dito popular: “Quando a gente aceita dói menos”. O texto. Sobre ele abro um parêntese para comentar duas coisas que acho relevantes em relação à adaptação: Primeiro, conheço um monte de amigos que trabalham com adaptações de textos teatrais, e todos são enfáticos em dizer que é muito mais difícil adaptar um texto teatral do que escrever um. Eu já vivi uma experiência como esta, e confesso que foi bastante dolorosa. Por isso, quando preciso adaptar um texto, opto em ter alguém que tenha capacidade para fazê-lo. Mas aprendi que para ter sucesso numa adaptação é preciso preservar a essência da história. Nesse contexto tem muita gente por aí usando do pós-modernismo para assassinar obras literárias. A segunda coisa é que tenho usado como critério para avaliar o texto, a leitura do mesmo ao solicitar à companhia ou grupo a dramaturgia original ou adaptada. Em relação ao texto em pauta, foi enviado pela produção da companhia Stultifera Navis apenas os oito contos de Nelson Rodrigues que compõem o espetáculo: A dama do lotação; A desconhecida; Grande pequena; O anjo; O fruto do amor; O gagá; O monstro e Viúva alegre sem a devida adaptação. Os contos foram selecionados do livro A vida como ela é, contos esses publicados diariamente durante dez anos, no Jornal Última Hora, e que fazia muito sucesso na época, pois tratavam dos mesmos assuntos: traição, adultério, amor, ódio, sexo, dinheiro e relações familiares. O que ficou caracterizado para mim ao ler o material recebido, após assistir a encenação, é que não houve uma adaptação, e, sim, uma roteirização em cima dos contos de Nelson Rodrigues - o que é totalmente diferente de um texto adaptado. Sendo assim, vou tecer somente sobre os demais itens que formatam o espetáculo, e inicio já chamando atenção para o título: o uso do trocadilho das letras “C”, em referência aos cem anos que faria o autor, caso estivesse vivo, e “S”, quando do fato de ele não estar mais presente, é bastante inventivo e de  notável originalidade. A concepção de Lindemberg é muito boa. Mais uma vez ele sabe aproveitar muito bem as características do espaço, valorizando a montagem anticonvencional - que já é, inclusive, uma marca de suas encenações - e usufruindo de todas as possibilidades que o espaço apresenta tanto no que diz respeito à parte física quanto nos seus planos médio e alto. E um exemplo bem sucedido na perspectiva desses planos são os andaimes representando a casa e o local de trabalho por onde circulam as personagens, os quais nos remetem aos prédios e casarões antigos do Rio de Janeiro de décadas passadas; e os atores postos nessas estruturas em diferentes pontos de projeção nos dão a ideia dos referidos compartimentos. Muito legal! A máquina de escrever e o cafezinho pontuando a figura de Nelson Rodrigues no trabalho, localizado no andar de cima, é uma percepção genial! Várias outras marcas muito boas pontuam a encenação, como os diálogos e as mise en scénes que acontecem simultaneamente, o que nos dão a sensação de estarmos vendo várias histórias ao mesmo tempo. A cena do coito da viúva com o sócio do finado marido é puro teatro de revista, e é ótima! A inserção do hino do fluminense, assim como todas as nuances que localizam o universo do autor, expressam um diretor inteligente, atento aos movimentos de sua construção cênica. Porém, faz-se necessário pontuar algumas observações que visualizam os pontos negativos do espetáculo. Por ser o texto composto por oito contos, que apesar de falarem das mesmas coisas são diferentes, é preciso simbolizar bem as situações cênicas para a plateia entender a mudança de uma história para a outra. Portanto, nesse caso da encenação as transições são imprescindíveis para o entendimento do espectador. Na encenação de Lindemberg, esses ritos cênicos de passagem são frágeis. Não há percepção de mudança nem das cenas, nem de espaço; não sabemos identificar o que começou e o que terminou, e qual história estamos assistindo. Enfim, há uma grande confusão. Um exemplo disso é a troca do espaço que durante todo o tempo é o escritório e se transforma numa delegacia sem que nenhuma interferência visual ou simbólica tenha sido feita, a fim de entendermos que ali é outro local. A própria plateia teve essa sensação, pois tive a oportunidade de ouvir algumas pessoas que estavam ao meu lado expressarem tal incerteza: “E ali não era o escritório?” Ou ainda o uso repetitivo dos figurinos que sofrem poucas alterações de personagem para personagem, e de uma história para outra. É preciso trabalhar com esmero as passagens de cena, mesmo que haja a intenção de parecer que é uma história só. Não é o fato de se buscar a unidade geral do espetáculo que se vai abrir mão das especificidades de cada história, pois a falta de precisão e, consequentemente, entendimento das passagens de cena, deixa o espetáculo previsível. É preciso trabalhar melhor as características de cada personagem e suas ações físicas, principalmente em relação às mudanças de uma história para a outra, pois parecem ser as mesmas personagens em histórias diferentes. A ideia de Lindemberg simbolizar Nelson Rodrigues através de suas famosas frases é muito boa. Porém, o efeito de unidade não acontece. A presença de Nelson não convence, visto que vemos apenas os atores dizendo as frases que deveriam ser ditas pelo personagem Nelson Rodrigues, independente destes serem homens ou mulheres. O texto é dito por atores, não pelo seu autor - se é que me fiz entender. É preciso dar unidade ao personagem, e esse momento é extremamente importante! A fala, o pensamento, e a liga entre os contos de Nelson são fundamentais. Penso que esse momento não aparece de forma expressiva por falta de um entendimento global do elenco sobre o universo rodriguiano. Falta ao espetáculo os principais elementos do teatro de Nelson Rodrigues: o sexo, o tesão aflorado, a lascívia, o ódio, a raiva e a maldade. Com ele não existe meio termo, ou é ou não é. E, nesses pontos, a interpretação do elenco foi bem tímida, acanhada. A sensação que se tem é de que o elenco não corresponde ao tamanho da empreitada. O cenário é bem concebido. Além dos andaimes revestidos em pedaços de jornal, o revestimento dos móveis com o mesmo material e as capas dos sofás também em tecido com recortes jornalísticos, é uma ideia muito bem idealizada e totalmente contextualizada com a profissão de jornalista que Nelson Rodrigues exercia. Os figurinos tiveram pouco cuidado, não há um padrão, tudo é muito misturado. A utilização de tecidos com cores fosforescentes, como no caso do macacão abóbora usado na cena do conto Dama do lotação, desafina. Nessa época era pouco comum o uso de cores berrantes. Os figurinos mais bem compostos são os usados por Nelson e pelos personagens patriarcas. Nesse item, no geral, também falta unidade. Os adereços são um ponto favorável. As poltronas em formato mais antigo, as pastas no estilo 007 e a máquina de escrever de Nelson Rodrigues compõem bem com o cenário. A maquiagem é um dos quesitos mais fracos do espetáculo. É simplória e sem realce. É como se não houvesse tido um estudo sobre a época, e poderia ter sido uma grande aliada na caracterização das personagens. Faltaram base, traços, sinais, concepção, enfim. A luz é simples, mas está a serviço da encenação, pois mapeia os espaços e dá o tom nostálgico da época. É uma luz que completa, não compromete o espetáculo. A trilha sonora é composta aos moldes da época, meio radiofônica, perfeita para ambientar a atmosfera do espetáculo; uma mistura que nos faz lembrar música argentina com música húngara. Entretanto, é pouco explorada pelo diretor. Quem tem uma trilha de qualidade como é a trilha de C(S)em Nelson, cuja execução é primorosa, não pode haver tantos problemas com as passagens de cena nas histórias. A trilha pode ser uma grande aliada para resolver a metade desses problemas. A interpretação. Nesse quesito de interpretação, tenho analisado o ator individualmente. Mas no caso do espetáculo C(S)em Nelson vou fazer uma análise diferente, mais global, por três motivos: primeiro pelo grande número de atores; segundo pelo grande número de personagens, e terceiro pela linealidade das interpretações do elenco. Por razão dessas considerações, opto, então, por pontuar os casos específicos da interpretação. No âmbito geral o elenco é mediano, e vários problemas técnicos acompanham o grupo desde o início do espetáculo até o seu final; problemas que passam pela dicção, postura, até a construção das personagens. Estas situações deixam passar despercebidas cenas extremamente marcantes, como a cena do suicídio - onde a contracenação dos atores não valoriza a cena, e com isso não impacta a plateia. Ou ainda a cena em que o namorado de Lurdinha descobre que seu chefe quer seduzi-la. Falta verdade, emoção, intensidade. Aliás, falta isso tudo nos mais distintos sentimentos dos atores, sejam eles de ódio ou de desejo. A direção precisa fazer o grupo entender o que permeia o universo rodriguiano, para compor suas personagens com mais veracidade: sem hipocrisia, sem pudores e sem meio termo. Porém, há de se destacar três atores que cumprem bem as suas funções: Lindemberg Monteiro, Klinger Souza e Anne Samara. Esses, sim, destoam bastante, positivamente, do resto do elenco. Lindemberg Monteiro tem o controle de todas as suas personagens, sendo em cada momento o pai, o patrão ou o próprio Nelson. Sua dicção é muito boa. E as inflexões somadas às articulações e projeção vocal nos fazem entender muito bem o que dizem as personagens. Klinger Souza é muito bom, tanto nas cenas de tragédia como nas cômicas. Tem um “time” de humor muito aguçado. A cena com o patrão no escritório é hilária, e ele dá um show de talento fazendo Geraldo, marido da personagem Solange. Agora, sem dúvida, o destaque do espetáculo é a atriz Anne Samara, que nos presenteia com uma interpretação vigorosa em todas as personagens que fez. Tem uma postura corporal equilibrada, com expressões marcantes e uma voz encorpada, cheia de personalidade. Seu ápice maior se dá quando interpreta a viúva Abigail. Foi a única atriz a compor personalidades e características distintas as suas personagens. Samara é ótima, é nota 10. Emocionei-me ao ver uma atriz tão jovem, com tanta personalidade. É esse teatro que me faz vibrar: onde o ator se despe completamente para sua encenação. Considerações finais. Vêm reforçar que o espetáculo C(S)NELSON a medida que tem muitos elementos interessantes na encenação, muitas sacadas cênicas inteligentes, também tem muitos erros técnicos na sua construção. E tem seu nó crítico nas passagens de cena e na interpretação do elenco. O cuidado técnico mais apurado com o espetáculo em sua totalidade também deixa a desejar. É preciso buscar a tão sonhada unidade cênica que é a harmonia entre todos os elementos da encenação: texto, cenário, figurinos, luz, adereços, maquiagem, sonoplastia e interpretação. Todos os elementos tratados com a mesma intensidade, compreendendo que cada um tem a mesma importância na montagem do espetáculo. Por isso, a necessidade de o diretor compreender o espetáculo em seu todo a partir de seus elementos individuais. Por outro lado, mesmo com todos esses problemas técnicos que apontei, e que são totalmente solucionáveis, eu indico o espetáculo C(S)NELSON para um amigo e para todo mundo. Vale a pena ser visto.

Ficha Técnica
Direção geral: Lindemberg Monteiro
Construção cenográfica: Lindemberg Monteiro
Adaptação de texto: Tom Myers
Operação de som: Tom Myers
Trilha sonora original: Coutto Orchestra
Criação de iluminação: Ícaro Olavo
Operação de iluminação: Victor Prata
Elenco: Anne Samara
              Gessana Shakti
              Jully Lima
              Klinger Souza
              Lindemberg Monteiro
              Luciana Nunes
              Marcos Matos
              Sandra Azevedo
              Thais Goes
              Tinho Torquato









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