SENHORA DE TUDO
Posted on segunda-feira, 27 de abril de 2015
A INTRODUÇÃO: Fazer
uma crítica a um espetáculo de teatro não é tarefa das mais fáceis, como bem
tenho pontuado em escritos anteriores. Entretanto, menos fácil ainda é se
imbuir de amadurecida generosidade para aceitá-la, e agora me refiro a quem ela,
a crítica, se destina, isto é, o seu recebedor. “O termo tem origem no grego kriticos do
verbo krinein, julgar.
Portanto, capacidade de avaliar”. E a capacidade de avaliar se pauta na
análise de fundamentos e razões de alguma coisa, ou seja, faz-se necessário conhecer
aquilo que é investigado, com plena isenção e responsabilidade, sem nenhum tipo
de preconceito ou conceito pré-concebido, porém convicto do amplo conhecimento acerca
do objeto a ser analisado. Essa oposição ocorre porque, no geral, as pessoas se
acham muito capazes, mas não praticam a autocrítica, e com isso vão produzindo
trabalhos sem qualidade, ou de nível inferior. No papel de crítico, confesso sentir
prazer mesmo é em escrever sobre os bons espetáculos. Ao contrário do que
muitos imaginam sobre a pessoa que exerce essa difícil missão de avaliador, não
me divirto ou me encho de escárnio para “afiar a língua” a respeito de um
trabalho realizado, quase sempre, por colegas do mesmo universo profissional. Em
se tratando, especialmente, do nosso campo de atuação, almejo ver trabalhos sergipanos
de excelência, e por isso mesmo não posso me furtar de fazer uma crítica
técnica acerca dos espetáculos, principalmente aqueles realizados por amigos,
como já o fiz, porque minha avaliação não é pessoal, e, sim, técnica. Essa é a
função do língua afiada: provocar uma
reflexão sobre o universo teatral de Sergipe, vislumbrando o seu amadurecimento
em termo de qualidade, e, consequentemente, a sua expansão. Dito isto, vamos,
então, afiar a língua no espetáculo Senhora
dos restos, da Dicuri Produções. O TEXTO: Senhora
dos restos, de Euler Lopes, aborda vários temas ao mesmo tempo e
intensidade: o abandono, a morte, a miséria, o amor, o meio ambiente, entre
outros de profundidade singular. Sentimentos e situações vivenciados e transcendidos
pela personagem Senhora dos restos,
abandonada pela família, por seu amor e pelo mundo. O pessimismo schopenhaueriano implícito no texto de Euler é um soco
na boca do estômago - nos surpreende, nos causa dor e aflição, e, principalmente,
nos faz refletir sobre nós mesmos, e como nos situamos no mundo. É um texto
duro, mas tem poiesis.
Provoca ódio, mas também o choro. É a dialética de uma história que nos perturba
e nos aprisiona. Conheço vários textos do exímio autor, em que ele aborda seus temas
com muita poesia e reflexão. Mas, em especial, o texto Senhora dos restos se coloca, se não como o melhor, com certeza, como
o mais profundo em sua dramaturgia. A CONCEPÇÃO: Dentro
das vivências e experiências que tive como diretor, uma das mais importantes
foi assistir a ensaios abertos com renomados diretores brasileiros, a exemplo
de Antônio Abujamra, Ulysses Cruz, Aderbal Júnior e Bia Lessa, em que pude
conhecer suas teorias e práticas enquanto dirigiam suas próprias companhias e grupos.
Uma ideia fixa presente na abordagem desses diretores, um pensamento compartilhado,
repetido tal como um mantra, dizia que “a
encenação de um espetáculo é basicamente construída a partir de detalhes”.
Detalhes na interpretação do ator, na encenação, no cenário, nos figurinos, enfim.
O detalhe é o protagonista da montagem teatral. Na encenação de Senhora dos restos, o diretor Iradilson Bispo
exagera de maneira afirmativa nos detalhes, e constrói uma encenação
extremamente convincente, marcada especialmente pelo esmero estético do
trabalho, e por nortear a atriz para a construção de uma interpretação
inconteste. Ele se apropria do texto, que por si só é intimista, e consegue expandi-lo
num espaço de limitadas condições. O fato de ter apenas um ator em cena não impede
de identificarmos uma legião de outros personagens que nos saltam aos olhos e
se põem a nossa frente. As passagens de tempo, com a sirene da polícia
pontuando as cenas numa dosagem perfeita que não nos cansa, mas, sim, nos
inquieta, é perfeita. E a troca dos mantos pela personagem pontuando a passagem
dos sentimentos é um achado na encenação. Na cena do enforcamento, quando ela
usa um manto abrasileirado, é impossível não se ter também a sensação da morte
do nosso país. Porém, nada é mais tocante que a cena em que a Senhora dos restos quebra o adicuri; um
momento de profunda beleza nos dando conta de que estamos diante de um diretor
que sabe o que está fazendo, que conhece os meandros da direção teatral. Todas as
cenas, sem exceção, são bem resolvidas e bem executadas, dando uma dinâmica
primaz ao espetáculo. O
CENÁRIO: Antes de falar do cenário
de
Iradilson Bispo e Isabel Santos, abro um parêntese para enfatizar que sempre que
comento a despeito dos cenários dos espetáculos destaco como pontos principais
a justificativa e a utilidade dadas a eles. Falo sempre da importância de
agregar valores aos elementos colocados no cenário, a exemplo de confirmar o
uso individual de cada elemento do mesmo. No cenário de Senhora dos restos, apesar de os elementos serem muitos e nem todos
utilizados, a presença deles é justificável, pois a quantidade tem a função
visual de dar-nos a ideia de um amontoado de entulho produzido pelo homem. Tudo
no cenário está justificado e esteticamente uniforme, nada foi colocado ao
acaso, tem uma intenção que é a de simbolizar o universo interno e o exterior
da personagem. Percebe-se uma unidade cênica, o cenário dialoga com todos os
outros elementos da montagem. Um toque especial que valoriza a ação no início
da cena são as mantas tridimensionais penduradas, que vão sendo pouco a pouco retiradas
pela instigante personagem. Porém, uma pequena observação é que ele, o cenário,
está muito arrumadinho para um ambiente tão insalubre como é o de Senhora dos restos. OS FIGURINOS: Os
figurinos de Iradilson Bispo são criativos, mantém uma
coerência com o cenário e os adereços, e apesar de alguns comentários sugerirem
de que os mesmos remetem-se ao Bispo do Rosário, discordo plenamente. Os
figurinos de Iradilson tem originalidade, além de que não é tudo que se mistura
que é Bispo do Rosário. Na minha adolescência, por exemplo, conheci o universo
das penteadeiras de raparigas e das bicicletas de matuto, que eram caracterizadas
por uma diversidade de cores e elementos unidos pela mistura. O figurino também
é uma excelência em seu feitio. OS
ADEREÇOS: A criação de Iradilson Bispo se conflui harmoniosamente
e de forma coerente com os cenários e os figurinos. Os cabides são um charme a
parte, e também os bonecos, confeccionados pelo artista Augusto Barreto, mantém o mesmo padrão
de qualidade, uma marca da montagem. Tudo é muito bem cuidado como deve ser. A MAQUIAGEM: A
maquiagem cumpre igualmente o seu papel dentro de sua simplicidade, compondo totalmente a unidade cênica do
diretor. No entanto, as mãos da personagem estão muito limpas e bem tratadas, o
que se configura um equívoco, provocando uma pequena distorção dentro do
contexto, pois a sujeira marcada em seu rosto passa necessariamente pela
sujeira nas mãos. A
TRILHA SONORA: A trilha é bem construída, tanto em relação à
seleção das músicas e dos efeitos sonantes, como a utilização da expressão
sonora em benefício da atriz. Na hora em que Isabel Santos canta, também executa
a canção com muita qualidade. Aliás, reitero,
qualidade é uma marca nesse trabalho, visto que tem por trás um diretor exigente
e esmerado. A
LUZ: A luz tem uma personalidade determinante, e mais do que querer
dar um show de iluminação se coloca plenamente a serviço da encenação, apesar
dos pequenos problemas técnicos inerentes a trabalhos com som ao vivo. A
iluminação faz parte da encenação como uma marca importantíssima para dar o
clima psicológico mais do que necessário à trama. A
INTERPRETAÇÃO: A atriz Isabel Santos está
inteira na cena, armada e municiada de todas as técnicas que o diretor lhe
ofereceu. Seu aprendizado de mais de trinta anos de teatro se expressa em seu primoroso
trabalho vocal. Entende-se tudo o que ela diz, inclusive os balbucios. As
inflexões são colocadas perfeitamente, assim como as entonações. As ações
físicas seguem o mesmo padrão de qualidade do trabalho vocal, e quando a atriz
tem que interpretar sem usar a palavra também surpreende. A intérprete é
impecável! Utiliza a respiração no tempo certo, executa os falsetes com
perfeição, e a sua relação com o manuseio dos elementos dispostos no cenário
mostra-nos uma intimidade bem treinada. Pontuo apenas um pequeno deslize quando
da execução da música que interpreta: nesse momento o timbre de voz se
distancia do timbre da personagem, é preciso buscar essa unidade. No mais, Isabel
Santos é uma atriz segura de seu intuito, e conhecedora do espaço em que está
pisando. Sua interpretação é de encher os olhos e comover a alma. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Há
muito tempo não assistia a um espetáculo de teatro sergipano que, após seu término,
me deixasse com a sensação de “quero mais!”, de “já terminou?”... Senhora dos restos é um desses
espetáculos que nos deixa com essa sensação. A confluência de um texto
visceral, com uma montagem extremamente coerente e uma atriz em sua plenitude, o
resultado final não poderia ser outro se não o de um espetáculo digno de
qualquer pessoa assistir: seja aqui em Sergipe, seja em outro canto do Brasil,
ou em qualquer outro lugar do mundo. Senhora
dos restos é aquele espetáculo que, de tão bom, podemos comparar a um substancial
suco de mangaba, que só Sergipe tem.
FICHA
TÉCNICA
Elenco: Isabel
Santos
Texto: Euler Lopes
Direção: Iradilson Bispo
Texto: Euler Lopes
Direção: Iradilson Bispo
Cenografia: Iradilson
Bispo e Isabel Santos
Figurino, Maquiagem e Adereços: Iradilson Bispo
Confecção de Bonecos: Augusto Barreto/Grupo Mamulengo do Cheiroso
Projeto Gráfico: Clarissa Rocha
Fotografias: Maria Odília
Iluminação: Denys Leão
Figurino, Maquiagem e Adereços: Iradilson Bispo
Confecção de Bonecos: Augusto Barreto/Grupo Mamulengo do Cheiroso
Projeto Gráfico: Clarissa Rocha
Fotografias: Maria Odília
Iluminação: Denys Leão
Sonorização: Negão
Operador/Parceria Áudio
Trilha Sonora:
Iradilson Bispo
Operação de trilha e Contrarregragem: Fernando Neves
Produção: Patrícia Santos e Isabel Santos
Assistente de Produção: Fernando Neves
Coordenação de Produção: Dicuri Produções
Produção: Patrícia Santos e Isabel Santos
Assistente de Produção: Fernando Neves
Coordenação de Produção: Dicuri Produções



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